Crítica Teatral do espetáculo: “UMA RELAÇÃO TÃO DELICADA”.

– Espetáculo:
“UMA RELAÇÃO TÃO DELICADA”

A DELICADEZA EM DOSES CRONOLÓGICAS INEVITÁVEIS, QUE SUCEDEM ÉPOCAS EM DESORDEM, DE ABISMO NAS RELAÇÕES NECESSÁRIAS E “IMUTÁVEIS” DA VIDA; O SER FILHO E O SER MÃE.

A peça da francesa LOLEH BELLON, com idealização e adaptação de Rita Guedes, tem aporte direcional de Ary Coslov com assistência de Marcelo Aquino.

Em cartaz no teatro Vanucci, às atrizes Rita Guedes e Letícia Isnard. Sexta à domingo. Até 08/03.

Tradução de Andrea Daher e uma cuidadosa direção de produção por Lú Klein.

“Charlotte é vivida, da fase adulta à velhice, por Rita Guedes. Jeane, da infância à fase adulta, por Letícia Isnard. Trazem às memórias de suas vidas conjunta, às épocas se confundem, se sucedem em desordem. 

É assim que a criança desejosa da presença e do amor de sua mãe, enfraquecida pela idade, e que acaba reproduzida a mesma demanda que sua filha necessitava quando criança. Tensões, incompreensões e cobranças, envolvendo amor, conflito e dissimulação”. Assim diz o release do espetáculo.

O texto de LOLEH BELLON transmiti exatamente o que foi descrito no título: DELICADEZA EM DOSES CRONOLÓGICAS INEVITÁVEIS, QUE SUCEDEM ÉPOCAS EM DESORDEM, DE ABISMO NAS RELAÇÕES NECESSÁRIAS E ” IMUTÁVEIS” DA VIDA; O SER FILHO E O SER MÃE.

Emoções atemporais irremediáveis numa relação de vínculo tão sanguíneo. Emoções nada antiquadas, arcaicas, e sim, que vão estar sempre no presente, passado e futuro.

Inelutável que isso não se repita ao longo da vida.

Figurinos assertivos, adequados em discrição eficaz nas mãos de Tiago Ribeiro.

João Paulo Mendonça desenha as passagens cênicas com uma trilha sonora eficiente, atendendo perfeitamente a sutilidade da proposta.

Uma cenografia objetiva, bem explorada e distribuída, de Marcos Flaksman, que a deixa num cintilar com intenso brilho em híbrida iluminação de cores vibrantes do Mestre Aurélio de Simoni. Misturam-se as sutilezas em cenas, com a música, caixa cenográfica e desenho de luz. 

Delicadezas intensas se intervindo.

O espetáculo é conduzido de maneira melíflua, harmoniosa, doce, em curvas do tempo com licença poética teatral, aclimatado pela direção, e frugal, comedido, moderado e bem pensado, na direção de movimento de Marcelo Aquino.

Um espetáculo de pequenos momentos jocosos bem certeiros, no embate da fragilidade humana que o tempo nos impõe, com a transição da infância até a velhice.

Uma partitura direcional por Ary Coslov, sabendo manejar em átimos de cenas bem sucedidas, lidando com as manifestações e mudanças que vai e vem no tempo, extemporâneas, num urdir perfeito da delicadeza que é o verdadeiro tom e compasso do espetáculo.

Uma direção que enobrece, dignifica, no sublimar de um caminho afetuoso, e cumplicidade com à autora francesa, numa invasão súbita de troca de personagens em perspicácia.

A delicadeza é o abre-alas que abre às portas para também sermos cúmplices como espectadores.

Atrizes que transitam em cenas com hercúlea empatia entre si, que transborda até a platéia.

Amorosidade, confiança e lealdade cênica é aparente.

A delicadeza sempre permeando e se intrometendo na arquitetura de uma pesquisa das personagens  proveniente da entrega e comprometimento.

Uma dialética entre Rita e Letícia, num argumentar espontâneo, delicado, cheio de afeto e talento.

Rita Guedes, idealizadora do projeto, mergulhou de cabeça, dividiu as águas de sua carreira, com risco de cair na caricatura grosseira.

Ela agarra a resiliência e desenvolve personagens que vai aos extremos com comovente invulnerabilidade.

Letícia Isnard de talento e empatia imponente, criou esgares em expressões com naturalidade e maturidade visíveis. Trejeitos no rosto e no corpo, voluntários e involuntários de uma grande atriz.

Bravo atrizes!!!

“UMA RELAÇÃO TÃO DELICADA” é uma casta delicadeza em doses. O ser filho, mãe, dentro das necessidades da vida. Um abismo de relações necessárias que se torna vitalícia no passado, presente e futuro.

Um espetáculo criado com licença poética na inspiração da realidade de dores e amores.

Sentimentos enfraquecidos pela idade, carências, no frágil do nosso externar interior. 

Mutável ou imutável, o espetáculo e o texto diz a que veio.

Assistam!

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1 Comment

  • Fátima Fachetti
    Posted 17/02/2020 at 18:32 0Likes

    Tomando-se como referência a análise calorosa do crítico, a imaginação do leitor só pode desejar assistir a esse que, certamente, deve ser um daqueles espetáculo que têm bálsamo para o espírito e nos fazem flutuar!

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